Uma [segunda] receita para o prontuário eletrônico

 Uma [segunda] receita para o prontuário eletrônico

Há décadas a literatura médica e de Informática em Saúde questiona a efetividade dos prontuários eletrônicos para ajudar na rotina da clínica médica, não só no Brasil, mas no mundo todo. Não se trata de falhas de programação dos softwares, mas sim do conceito do prontuário eletrônico como solução única (monolítica). A boa notícia é as coisas estão mudando, para melhor.

O renomado cirurgião e colunista Dr. Alfredo Guarischi publicou no portal O Globo Saúde um artigo intitulado “Uma receita para o prontuário eletrônico” onde relata que ainda hoje os prontuários eletrônicos mais atrapalham do que ajudam os médicos em suas rotinas clínicas. Neste artigo reforço a problemática e aponto soluções, pois sim elas existem.

O problema é que a maior parte dos prontuários eletrônicos são otimizados para rotinas administrativas e não para as rotinas técnicas, normalmente descritas por meio de protocolos da Medicina Baseada em Evidências.

Médicos perdem até 70% do seu tempo cumprindo atividades administrativas burocráticas inerentes ao uso de software e isso tem sido apontado como uma das causas da crescente insatisfação de médicos e pacientes com o sistema de Saúde . Com todo esse tempo perdido o espanto seria se alguém ficasse satisfeito, não é mesmo?

Estudos da Johns Hopkins e da Universidade Federal de Minas Gerais, artigos especializados da Harvard Business Review e do The New Yorker e o relato prático de uma infinidade de médicos brasileiros reiteram que os softwares hospitalares do mundo todo de fato penalizam as rotinas médicas, isto é, protocolos, em favor das rotinas administrativas e financeiras.

Fácil supor que a motivação econômica obrigaria hospitais, clínicas e até entidades do terceiro setor a concentrarem seus esforços nas rotinas administrativas e de faturamento. No entanto, não faltam casos de sucesso de outras áreas que têm motivações econômicas igualmente relevantes, mas que dão níveis de prioridade semelhantes aos softwares para apoio administrativo e para apoio técnico-operacional. Esse é o caso das indústrias que projetam, testam e melhoram produtos, assim como gerenciam linhas de produção com softwares; e também é o caso de serviços tais como os de telemarketing ou de consultorias que usam softwares para automação de processos para gerir operações complexas.
O que você acha, a problemática dos prontuários seria das empresas de tecnologia ou dos compradores?

Eu acredito que a causa da problemática passa que dificuldade natural de alinhamento entre engenheiros de software e os médicos; passa pela imensa complexidade da Medicina, existem dezenas de milhares de protocolos diferentes; e passa pelo protagonismo dos decisores econômicos nos processos de compra de softwares, logo os fabricantes tendem a focar suas ofertas nos desejos desses gestores econômicos.

O Dr. José Wilson Magalhães Bassani, um proeminente pesquisador do Centro de Engenharia Biomédica (CEB) da UNICAMP, certa vez me disse que para se fazer um software médico se pode colocar um médico junto a um engenheiro de software, mas se esse engenheiro também for médico ou, pelo menos, possuir conhecimento médico os resultados serão muito, muito maiores. Inclusive, essa máxima é um dos pilares do curso de Engenharia Biomédica que ensina aos engenheiros conhecimentos médicos avançados. Não é à toa que o CEB é um dos departamentos da UNICAMP que mais detém patentes.

Acredito que uma solução viável para deixar os prontuários eletrônicos mais aderentes às reais necessidades médicas seria os fatiar em soluções menores, porém integradas.

Ninguém ou nenhuma empresa é boa em tudo. Grandes empresas como Samsung e Apple tem programas de inovação aberta por também pensar assim e a própria medicina é fatiada já que ninguém consegue ser bom em tudo. São os especialistas que lidam com as questões particulares e é um conjunto de especialistas multidisciplinares que trata dos casos complexos. Considerando a problemática conceitual do mecanismo de trabalho dos prontuários eletrônicos, que já perdura há décadas, seria utopia supor que uma única empresa seria capaz de ofertar uma solução ótima para cada um dos muitos processos técnico-operacionais, administrativos, financeiros e de marketing de uma instituição da Saúde.

Também não se pode descartar a complexidade de se contratar várias empresas, talvez startups, e garantir que todas elas tenham níveis de serviço similares e que sejam devidamente integradas. Contudo, com soluções confiáveis e devidamente integradas os gerentes de TI conseguem sim quebrar as barreiras culturais que dificultam o engajamento da equipe médica no uso dos softwares e assim os resultados positivos chegam, rápido.

A boa notícia é que existem meios e inúmeros casos de sucesso da troca total ou parcial de grandes softwares por soluções especializadas em processos determinados. Para isso o gerente de TI da instituição da Saúde precisa fazer uma boa gestão de contratos e o momento ideal seria pouco antes da contratação dos softwares, afinal os fornecedores tendem ser mais suscetíveis a negociarem níveis de serviço mais rígidos nestes momentos .

A #MV, uma das fabricantes de prontuários eletrônicos líder de mercado no Brasil também está dando passos sólidos para melhorar o valor de sua solução para os médicos. Dentre suas estratégias está a #HealthcareAliance, uma iniciativa para aproximar e integrar outras empresas com soluções complementares ou até mesmo concorrentes às oferecidas pela própria #MV. Com essa estratégia eles devem acentuar sua liderança na medida em que seus clientes poderão contratar soluções especializadas em processos específicos com facilidade e com baixos riscos de integração. Mesmo nos casos onde essa solução de terceiros substitua uma das ofertadas pela própria #MV ela ganha na medida em que fideliza seu cliente na sua plataforma. Essa estratégia é similar a adotada pelas plataformas Android e iOS que foram muito bem-sucedidas na fidelização e na atração de novos usuários justamente pela alta disponibilidade de aplicativos de terceiros.

Vale ressaltar que mesmo sem autorização formal dos fabricantes de software para hospitais, incluindo prontuários, incontáveis soluções de terceiros já se integram a elas. Há hospitais que fazem integrações com equipes de TI próprias e outros que contratam terceiros especializados nesta temática. Em outras palavras, a integração é um caminho sem volta para que os valores demandados pelo sistema de Saúde possam ser entregues.

A medicina é um sistema adaptativo complexo que evoluiu de forma variável e neste contexto os softwares devem servir à medicina e não o inverso . Se você é um gestor da Saúde e também concorda com esse diagnóstico do Dr. Alfredo Guarischi é hora de buscar complementos para seu prontuário eletrônico. Não tenha dúvidas, sua competitividade vai aumentar e sua equipe médica vai lhe agradecer.

PORTAL O GLOBO SAÚDE. Uma receita para o prontuário eletrônico. Disponível em: < https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/artigo-uma-receita-para-prontuario-eletronico-23230878>

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